Mesmo após operação da PF, clínica investigada recebeu mais de R$ 5,2 milhões do Governo de Alagoas em 2026
Portal da Transparência aponta que a NOT acumulou R$ 5,39 milhões em valores liquidados até julho deste ano, mesmo sendo alvo da Operação Estágio IV
Francês News
Mesmo após ter sido alvo da Operação Estágio IV, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema milionário de desvio de recursos da saúde pública em Alagoas, a Clínica NOT – Núcleo de Ortopedia e Traumatologia Ltda. continuou recebendo recursos do Governo do Estado em 2026. Levantamento realizado pelo portal Francês News, com base em dados do Portal da Transparência de Alagoas, mostra que, entre 1º de janeiro e 2 de julho deste ano, a empresa acumulou R$ 5.393.275,00 em valores liquidados, dos quais R$ 5.236.775,00 já foram efetivamente pagos pelos cofres públicos estaduais.
Os recursos foram repassados por dois órgãos estaduais. O Fundo Estadual de Saúde (Sesau) empenhou, liquidou e pagou R$ 4.332.775,00 à clínica. Já o Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Estado de Alagoas (Ipaseal Saúde) liquidou R$ 1.060.500,00, dos quais R$ 904 mil já haviam sido pagos até a atualização do Portal da Transparência, em 2 de julho.
Os pagamentos ocorreram mesmo após a clínica ter se tornado um dos principais alvos da Operação Estágio IV, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2025, que investiga um suposto esquema de aproximadamente R$ 100 milhões em desvios de recursos destinados à saúde pública estadual.

Deflagrada em 16 de dezembro de 2025, a Operação Estágio IV cumpriu 38 mandados de busca e apreensão em Alagoas, Pernambuco e Distrito Federal, mobilizando cerca de 170 policiais federais, além de auditores da Controladoria-Geral da União (CGU), Receita Federal e Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus).
Um dos principais focos da investigação envolve supostas irregularidades na realização de atendimentos de fisioterapia.
Segundo o relatório da Polícia Federal, apenas em fevereiro de 2024 a clínica informou ter realizado 22.752 procedimentos fisioterapêuticos. Pelos cálculos dos investigadores, isso representaria cerca de 1.137 atendimentos por dia útil, ou aproximadamente 95 procedimentos por hora, número considerado incompatível com a estrutura física e operacional da unidade.
A investigação destaca que, durante diligências realizadas em outubro de 2024, o site institucional da clínica apresentava apenas duas fisioterapeutas no corpo clínico. Uma delas era Luciana de Fátima Leite Pontes de Miranda, esposa do então secretário estadual da Saúde, Gustavo Pontes. A outra profissional, segundo a PF, atuaria especificamente com RPG e pilates.
Os investigadores também observaram que a clínica possuía apenas uma estrutura reduzida destinada à fisioterapia, compartilhando o espaço com diversas outras especialidades médicas e atendimentos de convênios particulares.
Outro ponto destacado pela Polícia Federal é que Luciana de Fátima, além de aparecer como responsável pelos atendimentos de fisioterapia, também cursava medicina em Pernambuco, exercia cargo de secretária parlamentar na Câmara dos Deputados e administrava empresa privada, circunstâncias consideradas pelos investigadores incompatíveis com o elevado volume de procedimentos registrados.
Ainda segundo a PF, entre setembro de 2023 e agosto de 2025 foram pagos R$ 2.314.035,00 referentes a 154.269 sessões de fisioterapia, o que reforçou a suspeita de registros de atendimentos incompatíveis com a capacidade operacional da clínica.
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a proximidade entre a clínica e a Secretaria de Estado da Saúde.
Segundo a investigação, Gustavo Pontes deixou formalmente o quadro societário da NOT em 1º de junho de 2023. Apenas 11 dias depois, a empresa apresentou plano operativo para ingressar no Programa Mais Saúde e passou a contratar com a própria Secretaria da Saúde comandada por seu ex-sócio.
Apesar da alteração societária, a Polícia Federal afirma que o nome de Gustavo Pontes permaneceu listado como ortopedista integrante do corpo clínico da clínica no site institucional da empresa.
Durante o cumprimento dos mandados judiciais, foram apreendidos aproximadamente R$ 616 mil em dinheiro vivo, cerca de R$ 300 mil em joias, além de US$ 24 mil e € 10 mil em espécie. Também foi determinado o sequestro judicial de uma pousada localizada em Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas, por suspeita de aquisição com recursos provenientes do esquema investigado.

Gustavo Pontes chegou a ser afastado do cargo por decisão judicial relacionada à Operação Estágio IV. Na ocasião, o governador Paulo Dantas (MDB) afirmou que o Governo de Alagoas não compactuava com irregularidades e anunciou a criação de uma comissão para acompanhar o caso.
Entretanto, em fevereiro deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu o afastamento do secretário ao acolher argumentos da defesa sobre supostas nulidades processuais. Na sequência, Paulo Dantas assinou decreto reconduzindo Gustavo Pontes ao comando da Secretaria de Estado da Saúde.
Atualmente, a investigação tramita sob competência do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), após decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) que reconheceu a predominância de recursos estaduais no objeto da apuração.