Um em cada dois bebês de Alagoas nasce fora da cidade da mãe; Maceió recebe 7 mil por ano de outros municípios
Capital recebeu gestantes de 78 cidades alagoanas entre janeiro e maio de 2026; estado tem apenas três unidades de referência para gravidez de alto risco, duas delas em Maceió
Em Alagoas, ter um filho ainda significa, para quase metade das mães, pegar a estrada. Dos 46.398 nascidos vivos de mães residentes no estado em 2025, 22.680 vieram ao mundo em um município diferente daquele onde a mãe morava, o equivalente a 48,9% do total. Na prática, um em cada dois bebês alagoanos nasce longe de casa.
Os números fazem parte de levantamento realizado pela reportagem nos microdados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, que cruzou em cada registro o município de residência da mãe e o município onde o parto ocorreu.
O percentual se repete há três levantamentos. Em 2024, com dados já consolidados, foram 21.993 nascimentos fora da cidade de residência entre 45.436 registros (48,4%). Na prévia de 2026, que vai de janeiro a maio, são 7.977 de um total de 16.437 (48,5%).
Capital atende 78 cidades
O principal destino é Maceió. Em 2024, 7.183 nascimentos de mães residentes em outros municípios alagoanos ocorreram na capital, cerca de 22% de todos os bebês de mães que moram fora dela. Em 2025, foram 7.034. Somados, são 14.217 bebês em dois anos. A prévia de 2026 acrescenta 2.489 registros entre janeiro e maio, o que eleva o total a 16.706.
Nos cinco primeiros meses deste ano, a capital recebeu gestantes de 78 dos outros 101 municípios do estado. Nenhum outro polo chega perto dessa abrangência.
Rio Largo lidera a lista de origem nos dois anos completos, com 1.295 nascimentos em Maceió em 2024 e 1.219 em 2025. Na sequência vêm Marechal Deodoro (680 e 738), Pilar (369 e 416), Atalaia (387 e 408) e Satuba (294 e 335). Municípios mais distantes, como Viçosa e União dos Palmares, também figuram entre os que mais enviam gestantes.
Para as maceioenses, a lógica é inversa: apenas 0,7% dos bebês de mães da capital nasceram fora da cidade até maio de 2026.
Alto risco concentrado
A concentração tem explicação estrutural. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), Alagoas tem apenas três unidades habilitadas como referência para gestação e puerpério de alto risco: o Hospital Regional de Arapiraca, o Hospital Universitário e a Maternidade Escola Santa Mônica. As duas últimas ficam em Maceió. Para a gestante do Sertão ou da Zona da Mata com complicação na gravidez, o caminho quase sempre termina na capital ou no Agreste.
Mortalidade acima da média nacional
O cenário ganha peso diante de outro indicador do Ministério da Saúde. A taxa de mortalidade pós-neonatal em Alagoas, que mede os óbitos de bebês entre 28 dias e 1 ano de vida por mil nascidos vivos, chegou a 4,75 em 2023, o dado mais recente disponível. A média brasileira no mesmo ano foi de 4,16. O índice alagoano é 14% superior ao nacional e cresceu pelo terceiro ano consecutivo: era 3,59 em 2020, passou para 4,26 em 2021 e 4,32 em 2022.
A mortalidade pós-neonatal depende também de atenção básica, saneamento e condições de vida, e os dados não permitem atribuí-la à concentração dos partos. Mas os dois números apontam na mesma direção: a estrutura de cuidado materno-infantil de Alagoas continua longe de onde a população vive.