Polícia
INVESTIGAÇÃO DIGITAL

Como a polícia ligou cinco perfis falsos a advogada indiciada em Maceió

Inquérito da Dracco relaciona contas usadas em ataques e ameaças a uma disputa pela Fazenda Vale do Catolé; investigada ainda não foi julgada nem condenada

Por Francês News

A Polícia Civil de Alagoas concluiu um inquérito sobre uma suposta rede de ataques virtuais envolvendo ameaças de violência, acusações contra integrantes do Judiciário e publicações direcionadas a empresários. O trabalho resultou no indiciamento da advogada Adriana Mangabeira Wanderley por 14 condutas que, segundo a investigação, podem configurar infrações penais. A informação foi divulgada pelo jornalista Edmilson Teixeira nesta quarta-feira (5) no portal AL1.

O inquérito nº 15186/2026 foi assinado em 3 de novembro pelo delegado João Marcello Almeida, da Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), e encaminhado à Justiça e ao Ministério Público de Alagoas.

De acordo com o relatório policial, foram atribuídos à investigada cinco episódios de coação no curso do processo, três de incitação ao crime, três de calúnia, dois de difamação e um de injúria. O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios, mas não equivale a denúncia do Ministério Público ou condenação judicial.

Disputa por fazenda está no centro do caso

A investigação tem como pano de fundo a disputa pela Fazenda Vale do Catolé, área de 39 hectares localizada em Maceió e negociada judicialmente por R$ 2,6 milhões durante um processo de inventário.

O Francês News acompanha o conflito desde março, quando representantes de uma empresa entraram na propriedade com a presença da Polícia Militar. Os herdeiros contestam a venda e o valor atribuído ao imóvel, enquanto o inventariante sustenta que a alienação foi autorizada pelo Poder Judiciário.

Em julho, vídeos mostraram moradores confrontando policiais durante outra ação na fazenda. Na ocasião, a operação para cumprimento da ordem de imissão na posse teve momentos de tensão, com protestos e necessidade de reforço policial.

Dados digitais ligaram contas à investigada, diz polícia

A apuração avançou a partir de relatórios produzidos pela plataforma Verifact e apresentados pelos empresários que adquiriram o imóvel. O material reuniu 51 capturas de tela e registros de auditoria digital.

Entre as contas analisadas estava o perfil @CapitalBrasilia, que, conforme o inquérito, utilizava identidade visual semelhante à de um veículo jornalístico e publicava acusações de “venda de sentenças” e “grilagem de terras”.

Por meio de requisições encaminhadas à Meta, Google, TIM e Vivo, a polícia cruzou dados cadastrais, números de telefone e endereços eletrônicos. Segundo a Dracco, uma linha registrada em nome de Adriana Mangabeira teria sido utilizada para cadastrar ou confirmar por SMS cinco perfis digitais.

O inquérito aponta ainda que endereços de e-mail associados ao perfil investigado e ao grupo identificado pelas iniciais AMW foram criados no mesmo dia, com poucos segundos de diferença entre as confirmações. Esses elementos fundamentaram a vinculação das contas à advogada, segundo a conclusão policial.

Publicações mencionavam tiros e mortes

As postagens consideradas mais graves foram divulgadas em períodos próximos ao cumprimento de decisões relacionadas à desocupação da fazenda. O relatório menciona mensagens com ameaças de tiros, mortes e uso de espingarda contra pessoas que entrassem no imóvel.

Para a Polícia Civil, o conteúdo ultrapassou os limites da manifestação de opinião e buscou intimidar envolvidos no processo judicial. A conta investigada possuía mais de 7 mil seguidores.

O material também reúne montagens e acusações dirigidas aos empresários Bruno Castro e Victor Dall Agnol, além de ataques contra magistrados e desembargadores do Tribunal de Justiça de Alagoas.

Nos crimes contra a honra que dependem da manifestação das vítimas, a Dracco informou os servidores públicos citados para que decidam se apresentarão representação ou queixa-crime.

Indiciamento ocorreu sem interrogatório

Conforme o inquérito, Adriana Mangabeira foi chamada para prestar esclarecimentos em setembro e outubro, mas não compareceu aos interrogatórios. A autoridade policial formalizou, então, o indiciamento indireto.

A conclusão do procedimento não impede a investigada de apresentar sua versão, documentos ou outros elementos de defesa. Caberá agora ao Ministério Público analisar o inquérito e decidir se oferece denúncia, solicita novas diligências ou pede o arquivamento.

Até a publicação desta matéria, não havia manifestação da defesa anexada ao material consultado. O espaço permanece aberto para posicionamento.