Murici: décadas de poder e uma promessa que nunca se realizou
Berço político dos Calheiros, cidade poderia ter se transformado em polo regional de indústria, comércio e serviços, mas ainda convive com perda populacional, economia pouco diversificada e dependência do setor público.
Redação
Murici poderia ter sido um dos grandes laboratórios de desenvolvimento de Alagoas. Localizada em uma posição estratégica na Zona da Mata, próxima à BR-104 e a pouco mais de 50 quilômetros de Maceió, a cidade reuniu durante décadas uma condição rara no interior do Estado: acesso direto a alguns dos maiores centros de poder político de Alagoas e de Brasília.
Mas a promessa nunca se realizou por completo.
Murici é o berço político dos Calheiros. Foi de lá que saiu Renan Calheiros, que chegou à Presidência do Senado, e onde Renan Filho iniciou sua trajetória política como prefeito antes de se tornar deputado federal, governador de Alagoas e senador. A família ocupou, por décadas, posições capazes de aproximar o município de recursos federais, estaduais, emendas parlamentares e grandes decisões administrativas. Registros do Congresso mostram, inclusive, a destinação de recursos para projetos no município durante esse período.
A pergunta que permanece é o que Murici conseguiu construir com toda essa proximidade com o poder.
Os dados mais recentes mostram uma cidade que ainda procura romper um ciclo de baixa diversificação econômica. Entre 2010 e 2022, Murici perdeu 5,69% da população, passando de 26.706 para 25.187 habitantes. A estimativa de 2025 aponta 25.926 moradores, número ainda inferior ao registrado no Censo de 2010.
O movimento demográfico chama atenção porque ocorre em uma cidade que poderia exercer função de polo regional. Em vez de crescer e atrair moradores em busca de emprego e oportunidades, Murici apresentou redução populacional na última década.
O PIB de Murici alcança cerca de R$ 1,1 bilhão, mas o número esconde uma característica importante da economia local: sua baixa diversificação.
Segundo dados reunidos pela Caravela, 56,4% do valor adicionado do município vêm da agropecuária. A administração pública responde por 22,9%, os serviços por 16,3% e a indústria por apenas 4,4%.
O dado industrial é particularmente revelador.
Para uma cidade localizada em um eixo rodoviário estratégico, próxima da capital e cercada por municípios da Zona da Mata, a participação de apenas 4,4% da indústria mostra que Murici ainda não conseguiu transformar sua localização em um ciclo consistente de industrialização.
O comércio e os serviços também não alcançaram escala suficiente para colocar o município entre os principais polos econômicos do interior.
É uma economia que produz, mas ainda não diversifica. Arrecada, mas não conseguiu transformar essa arrecadação em uma dinâmica permanente de atração de empresas. Tem localização, mas ainda não converteu logística em desenvolvimento.
Não faltaram anúncios.
Ao longo dos anos, diferentes empreendimentos foram apresentados como possibilidade de inaugurar uma nova fase econômica para Murici. Em 2018, a instalação da Energy Pré-Moldados foi anunciada com expectativa de geração de empregos e ocupação de uma área de 40 mil metros quadrados.
Em 2023, um projeto relacionado à instalação de um centro de distribuição da Natura voltou a colocar Murici no centro das expectativas de industrialização. A previsão divulgada na época era de aproximadamente 1,2 mil empregos e de um impacto significativo na arrecadação municipal.
O problema histórico de Murici não é a ausência de projetos anunciados. É fazer com que eles se transformem em uma base econômica permanente.
Uma cidade não se torna polo industrial porque recebe uma empresa. Torna-se polo quando consegue criar um ambiente capaz de atrair sucessivamente novas empresas, fornecedores, trabalhadores, comércio, serviços, investimentos e arrecadação.
É esse ciclo que ainda não se consolidou em Murici.
A história de Murici torna o cenário ainda mais difícil de ignorar.
Poucos municípios do interior alagoano estiveram tão próximos das estruturas de poder quanto a cidade. Renan Calheiros chegou ao comando do Senado; Renan Filho governou Alagoas por oito anos e hoje ocupa uma cadeira no Senado. A trajetória política dos Calheiros colocou Murici no mapa nacional por décadas.
A influência, portanto, existiu.
Obras também chegaram. Investimentos públicos foram anunciados. Estradas foram planejadas e construídas. Equipamentos públicos foram entregues.
Mas desenvolvimento econômico é uma medida diferente.
Ele aparece quando o jovem consegue permanecer na cidade porque encontrou emprego. Quando uma empresa escolhe se instalar ali em vez de procurar outro município. Quando o comércio cresce porque existe renda circulando. Quando a indústria cria uma cadeia de fornecedores. Quando o trabalhador deixa de depender exclusivamente do emprego público ou da atividade agropecuária.
É nesse ponto que Murici ainda parece estar esperando.
A eterna promessa
O município não é um caso de ausência completa de investimentos ou de inexistência de avanços. A escolarização entre 6 e 14 anos chega a 99,18%, e novas obras e equipamentos continuam sendo anunciados pelo poder público.
O que os números colocam em discussão é outra coisa: por que uma cidade com localização estratégica, proximidade histórica com o poder e décadas de investimentos ainda não conseguiu dar o salto econômico que tantas vezes foi anunciado?
Murici poderia ser porta de entrada da Zona da Mata, polo logístico, centro regional de comércio e serviços e destino de novos empreendimentos industriais.
Poderia ter usado a influência política acumulada durante décadas para construir uma economia menos dependente do setor público e mais capaz de produzir empregos privados.
Poderia ter transformado sua posição geográfica em vantagem competitiva.
Poderia ter crescido.
Mas, enquanto a política produziu sucessivamente nomes de projeção nacional, a cidade continuou pequena.
Enquanto seus representantes chegaram aos principais centros de decisão do país, Murici continuou buscando uma vocação econômica própria.
E enquanto o discurso sobre o futuro se repetia, os números demográficos mostram uma cidade que perdeu população.
É nesse contraste que está o maior paradoxo de Murici: uma cidade que esteve tão perto do poder durante tanto tempo, mas que ainda não conseguiu transformar essa proximidade em um projeto de desenvolvimento capaz de mudar sua própria história.