Relatório da PF revela mensagens em que esposa de secretário pede permanência de auditoras da Saúde de Alagoas
Francês News teve acesso ao documento da Operação Estágio IV, que aponta diálogo entre Luciana Pontes e o secretário Gustavo Pontes sobre servidoras da auditoria da Sesau
Francês News
Mensagens obtidas pela Polícia Federal durante a Operação Estágio IV indicam que a fisioterapeuta Luciana de Fátima Leite Pontes de Miranda, esposa do secretário de Estado da Saúde de Alagoas, Gustavo Pontes de Miranda, pediu a permanência de duas servidoras que atuavam na auditoria da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau). Os diálogos fazem parte do relatório da investigação e são apontados pelos investigadores como um dos elementos que reforçam a suspeita de possível interferência no setor responsável pela fiscalização de procedimentos e pagamentos da clínica Núcleo de Ortopedia e Traumatologia (NOT), investigada por supostas fraudes na execução de contratos com recursos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Esta é mais uma reportagem da série exclusiva do portal Francês News baseada no relatório da Polícia Federal que fundamenta a Operação Estágio IV. Nas publicações anteriores, o portal revelou documentos inéditos sobre contratos investigados, pagamentos milionários a empresas citadas na apuração, suspeitas envolvendo a clínica NOT e outros elementos reunidos pela Polícia Federal ao longo do inquérito.
Conforme o relatório obtido com exclusividade pelo Francês News, em uma conversa registrada em 28 de maio de 2024, Luciana, identificada no aplicativo de mensagens como "Meu Amor", envia ao marido a mensagem "Segura a Tereza e a Poliana". Gustavo responde "Mande o nome das duas" e, na sequência, recebe os nomes de Tereza Cristina Moura Tenório e Pollyana Christine Cavalcante Lopes de Góes. Em outra mensagem, Luciana informa que "Tereza trabalha na auditoria", seguida de uma relação com outros servidores lotados no mesmo setor.

PF relaciona conversa à auditoria da clínica NOT
Segundo o relatório da Polícia Federal, a conversa ganhou relevância porque Tereza Cristina Moura Tenório aparece entre os servidores que assinaram relatórios de auditoria relacionados aos atendimentos realizados pela clínica Núcleo de Ortopedia e Traumatologia (NOT), empresa investigada por supostas fraudes em procedimentos de fisioterapia custeados com recursos públicos.
Os investigadores afirmam que a análise dos dados telemáticos de Gustavo Pontes identificou o diálogo e apontam que o secretário teria solicitado a intervenção para manter determinados servidores da auditoria em suas funções. O documento cita expressamente Tereza Cristina Moura Tenório como exemplo de servidora que subscreveu alguns dos relatórios considerados suspeitos durante a investigação.
Relatório aponta suspeitas de fraude em procedimentos
A Operação Estágio IV apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos envolvendo contratos firmados entre a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e a clínica NOT.
De acordo com o relatório, auditorias analisadas pela Polícia Federal identificaram números considerados incompatíveis com a estrutura física e operacional da clínica. Um dos documentos registra 22.752 atendimentos de fisioterapia em fevereiro de 2024, média aproximada de 95 procedimentos por hora. Outro relatório aponta 19.856 atendimentos, o equivalente a cerca de 83 procedimentos por hora, quantitativos classificados pelos investigadores como improváveis diante da estrutura existente na unidade.
Com base nesses elementos, a Polícia Federal afirma haver "relevantes suspeitas de fraudes nos números apresentados pela NOT, bem como falhas nos procedimentos de auditoria", circunstâncias que, segundo o relatório, podem ter resultado em pagamentos superiores aos efetivamente devidos pela Secretaria da Saúde.
Luciana também é citada na investigação
Além das mensagens, o relatório aponta que Luciana de Fátima Leite Pontes de Miranda integra o corpo clínico da NOT e que ela e sua empresa, Leite Spindola Ltda., receberam recursos financeiros da clínica e de outros investigados. A Polícia Federal considera essas movimentações como parte dos elementos analisados no inquérito, que ainda será submetido ao contraditório e à ampla defesa.