PF revela esquema que cobrava até R$ 500 mil para fraudar concursos; delegado-geral de AL é apontado como mentor
Esposa de delegado de PE teria sido aprovada em 1º lugar no CNU com ajuda do esquema; organização usava “bonecos”, pontos eletrônicos e acesso antecipado a provas.
Por Redação
A operação da Polícia Federal que desarticulou um esquema milionário de fraudes em concursos públicos em todo o país revelou que a organização criminosa cobrava até R$ 500 mil para garantir a aprovação de candidatos em cargos de alto nível, incluindo tribunais, bancos federais, universidades e o Concurso Nacional Unificado (CNU).
As investigações, exibidas no programa Fantástico, apontam que o esquema era liderado por Thyago José de Andrade, que cooptava funcionários de bancas organizadoras para obter acesso antecipado a provas e gabaritos. Entre os métodos utilizados estavam o uso de “bonecos” (pessoas pagas para fazer a prova no lugar do candidato), pontos eletrônicos e o envio de fotografias dos cadernos de questões durante a aplicação das provas.
Valores e formas de pagamento
Segundo a PF, os valores cobrados variavam conforme o cargo pretendido. Quanto mais alto o salário e o poder do posto, maior o preço. Os pagamentos nem sempre eram feitos à vista: muitos candidatos parcelavam os valores ou entregavam bens de alto valor, como carros de luxo, como forma de quitar a dívida. Em alguns casos, os beneficiados passavam a pagar uma espécie de “mensalidade” após a aprovação.
Delegado-geral de AL no centro da investigação
A investigação aponta que o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, foi citado em uma delação premiada. Segundo a PF, quando ainda atuava em Arapiraca, ele presidiu uma investigação contra Thyago, obteve um mandado de prisão, mas, em vez de cumpri-lo, teria exigido que o investigado passasse a trabalhar para ele, fraudando concursos em benefício de pessoas ligadas ao delegado.
Parentes e amigos de Gustavo Xavier teriam sido beneficiados pelo esquema. Ayally Xavier, esposa do delegado, tentou ingressar na Polícia Civil de Alagoas por meio de concurso para delegada e teria usado um ponto eletrônico para receber respostas durante a prova — o equipamento não teria funcionado, e ela entregou a prova em branco.
As ordens para as fraudes eram transmitidas por homens de confiança do delegado-geral, entre eles Ramon Isidoro Soares Alves, investigador da Polícia Civil de Alagoas. Gustavo Xavier foi alvo de busca e apreensão, mas não foi preso.
Caso em Pernambuco
Outro caso investigado envolve o delegado da Polícia Civil de Pernambuco, Diogo Gonçalves Bem, e sua esposa, Larissa Saraiva Amando Alencar. Segundo a PF, Diogo teria pago a quadrilha para que Larissa fosse aprovada no Concurso Nacional Unificado (CNU) para o cargo de auditora fiscal do trabalho. Ela passou em primeiro lugar e continua exercendo o cargo. A reportagem tentou contato com o casal, mas não obteve retorno.
Operação e prisões
Na última fase da operação, a PF cumpriu mandados de prisão em Alagoas, Paraíba e Pernambuco. Dois professores suspeitos de resolver provas para candidatos foram presos. Além disso, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. Os envolvidos podem responder por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa e concussão.
O que dizem as defesas
A defesa de Thyago José de Andrade e de sua namorada, Laís Giselly Nunes de Araújo, afirma que eles não fazem parte de nenhuma organização criminosa e que são inocentes. A defesa de Antônio Limeira das Neves e Larissa de Oliveira Neves nega as acusações ou alega que ainda não há denúncia formal. A Fundação Cesgranrio, responsável pelo CNU, declarou que também é vítima das fraudes e que colabora com as investigações. Os demais investigados não se manifestaram publicamente.